“Se eu tivesse de escolher entre The Doors e Dostoiévski, é claro que escolheria Dostoiévski. Mas por que tenho de escolher?”

Susan Sontag, escritora, ativista dos Direitos Humanos e musa desta escola que vos fala.

Obs: Em 1978 ela deu uma entrevista para Jonathan Cott, colaborador e editor da revista Rolling Stone. A conversa, na íntegra, foi publicada pela Editora Autêntica. Compre dois exemplares. Sublinhe as passagens que te derem frio na barriga e dê de presente para alguém. Se chegar com uma garrafa de vinho, é praticamente uma declaração de amor que diz: te quero livre e me quero ao teu lado.

Escrever é deixar escoar a água salgada que é matéria-prima de gente: lágrimas, suor, amor e mar. Editar é pensar a palavra pra que ela seja fogos de artifício nas ideias e no sorriso de quem lê. Nas duas possibilidades, o coração precisa estar na pontinha do dedos.

O professor

Os alunos do sexto grau, numa escola de Montevidéu, tinham organizado um concurso de romances.

Todos participaram.

Éramos três no júri. O professor Oscar, punhos puídos, salário de faquir, uma aluna, representante dos autores, e eu.

Na cerimônia de premiação, foi proibida a entrada dos pais e de qualquer adulto. O júri fez a leitura da ata final, que destacava os méritos de cada trabalho. O concurso foi vencido por todos, e para cada premiado houve uma ovação, uma chuva de serpentina e uma medalhinha doada pelo joalheiro do bairro.

Depois, o professor Oscar me disse:

– Nós nos sentimos tão unidos que me dá vontade de fazer todos eles repetirem de ano.

E uma de suas alunas, que tinha vindo para a capital de um povoado perdido no campo, ficou falando comigo. Contou que, antes, ela não falava nunca, e rindo me explicou que seu problema era que agora não conseguia parar. E me disse que ela gostava do professor, gostava muuuuito, porque ele tinha lhe ensinado a perder o medo de se enganar.

Eduardo Galeano, no livro Bocas do tempo que reúne história das recordações ouvidas ou vividas pelo escritor e que vez em quando davam voltas em seu coração

“Pessoas chegam, cada vez mais, em busca de adestramento. Como se fossem indivíduos enguiçados, que precisam de conserto. Que devêssemos endireitar, ou emendar. É o que pedem: disciplina, tática, correção, ordem. Quando lhes digo que precisam, ao contrário, de desvio e de desordem, que precisam aprender a ‘errar bem’, e não a acertar, muitos me olham com espanto, como se eu lhes propusesse um crime, ou a morte.” disse o escritor José Castello sobre oficinas de escrita. E a gente traz aqui pra te dizer:  só  senta a bunda e escreve. Sem medo, sem certo e errado.

“Eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida”. escreveu Clarice Lispector no livro “Um Sopro de Vida” e trago aqui pra te dizer que no finalzinho dos anos 80, uma pesquisa mostrou que pessoas que escrevem sobre seus sentimentos podem ter seu sistema imunológico fortalecido. Não é uma regra. É uma possibilidade real. A psiconeuroimunologia acredita que isso acontece porque colocar em palavras emoções e sentimentos pode diminuir os níveis de cortisol, o “hormônio do stress”.

A psicanalise (um beijo, tio Freud) defende que a escrita ensina a mente a pensar de forma mais complexa e isso ajuda nas relações com o mundo e consigo, porque o uso da linguagem permite areelaboração dos fatos e a reflexão.

O escritor Jorge Luis Borges acredita que “a escrita nada mais é do que um sonho portador de conselhos”. E a Go, Writers tem certeza absoluta de que escrever é mudar o mundo. Porque pessoas são mundos.

 

Existir é, de algum modo, intervir no mundo. E isso pode ser feito de muitos jeitos. O que eu mais gosto é a junção de palavras. Sobretudo porque só as pessoas – com seus botões de carne e osso, como diria o Gil – podem escrever de um jeito que seja capaz de emocionar, provocar reflexões ou suspiros. Por isso, sempre que alguém me procura atrás de técnicas de narrativas estratégicas, caminhos para produzir textos que agradem a audiência ou o passo a passo do texto perfeito (aliás, não te engana, isso não existe) a primeira coisa que eu sugiro é: resgata a humanidade das tuas palavras. Escreve pra que as pessoas leiam, não pra que elas passem os olhos correndo. Escreve pra que as pessoas se sintam auto conscientes e auto confiantes, capazes de modificar seu entorno, cheias das possibilidades que o conhecimento nos oferta. E agora tu pode estar te perguntando: é porque que eu faria isso? Se eu nem trabalho escrevendo? Porque toda pessoa que tem o saber ler e escrever – que, sabemos, ainda é um privilégio, e que eu espero que não continue sendo – é capaz de usar palavras para mudar o mundo. Todas as pessoas desta sala, desta cidade, deste planeta. Se sabem que a palavra rosa, por exemplo, magicamente aparece quando a gente junta as letras r o s a , podem e devem hoje, agora e amanhã, escrever. Escrever aquilo que lhes encanta. Seja um texto na rede social, recomendando o trabalho de alguém, a história dos teus avós imigrantes, que aqui aportaram exatamente como as pessoas que hoje estão chegando em situação de refúgio em nosso país, ou uma carta pra alguém que tá bem pertinho e pode já ter esquecido que ocupa um espaço imenso no teu coração. Quem sabe o que tu aprendeu sobre liberdade quando falhou, ou como foi descobrir na prática o conceito de empatia. O que quer que seja, se for pra enlarguecer alguém, escreve. Conta as tuas histórias, inspira. Faz o que as máquinas são e serão incapazes: usa as tuas palavras pra acender estrelas dentro das pessoas.

“Crianças já sabem que monstros existem. Contos de fada dizem às crianças que monstros podem ser derrotados. “ disse o jornalista inglês excessivamente londrino G. K. Chesterton, também conhecido como “príncipe do paradoxo“, por ser um “conservador revolucionário” (será que existe?) que escrevia como quem toca violino. É minha frase favorita sobre coragem, aquela brisa que vez em quando lambe nossas bochechas, bagunça o cabelo, movimenta as marés internas. Essa frase aparece em neon toda que vez que gente escriba envia mensagem dizendo “tirei as palavras das gavetas, coloquei meu bloco na rua, mandei uma carta de amor, escrevi meu mapa de saída da inércia, finalmente consegui colocar aquela ideia em prática”. Porque nossas aulas, jornadas, palestras, encontros não existem só pra que tu escrevas. Elas são criadas para que tu voe.

Este site utiliza cookies para permitir uma melhor experiência por parte do utilizador. Ao continuar navegando em nosso site estará consentindo com a sua utilização. Recomendamos que clique no link para ler a nossa Política de Privacidade.